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13 de Maio de 2021

A saúde mental do trabalhador em tempos de pandemia

Adriana Belintani, Advogado
Publicado por Adriana Belintani
mês passado

No último dia 21 de março, a FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz, revelou a pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19, e o resultado demonstra um cenário que temos experiência, não é vivido somente pelos profissionais de saúde, mas por muitos trabalhadores de outros setores e há muitos anos.

Ao todo, 15.132 profissionais de nível superior, a maioria médicos e enfermeiros (81,4% do total), responderam ao questionário da Fiocruz aplicado em 2.200 municípios.

A pesquisa demonstra um aspecto bastante relevante uma vez que avaliou o ambiente laboral e os aspectos físicos, emocionais e psíquicos desses trabalhadores e descobriu que 43,2% deles não se sentem protegidos para o exercício de suas atividades, que reclamam da falta de equipamentos de proteção individual (EPI´s) levando a mais da metade dos profissionais de saúde, cerca de 64%, improvisar a sua própria proteção.

A pesquisa também revela que 15% dos médicos, enfermeiros e técnicos de saúde apontaram que faltam estrutura adequada para realização da atividade e fluxos de internação eficientes (12,3%). Os entrevistados também indicaram despreparo técnico (11,8%) e insensibilidade de gestores para suas necessidades profissionais (10,4%).

E, claro, as repercussões na saúde mental desse trabalhador da área de saúde demonstram queixas de perturbação do sono (15,8%), irritabilidade, choro frequente (13,6%) e incapacidade de relaxar e estresse (11,7%). Dificuldade de concentração e pensamento lento (9,2%), perda de satisfação na carreira, tristeza e apatia (9,1%) e até pensamentos suicidas (8,3%) também acompanham o cotidiano profissional. O trabalho também é apontado como extenuante por 22,2%. E até 14% da força que atua na linha de frente menciona estar esgotada.

A meu ver, a pesquisa feita pela FIOCRUZ é um retrato do que os trabalhadores enfrentam em seu dia a dia de trabalho, uma vez que a pesquisa também revela que, esgotados, os trabalhadores ainda se sentem sem apoio institucional (60%) e desvalorizados pela própria chefia (21%) e até mesmo pela população geral. Apenas 25% sentem-se valorizados pelos pacientes. O levantamento ainda mostrou que 40% deles foram vítimas de algum tipo de violência em seu ambiente de trabalho.

O posicionamento de algumas autoridades também prejudicou o trabalho de quem luta pela vida dos pacientes com covid-19. Ao menos 70% dos trabalhadores da saúde reprovaram declarações que consideram “inconsistentes e não esclarecedoras”.

Como eu já escrevi aqui em outros artigos, muitas vezes, o assunto estresse relacionado ao trabalho pode parecer um assunto novo, mas não é a realidade. O que acontece agora é que ele está ganhando cada vez mais protagonismo, assim como os estudos com relação aos riscos psicossociais.

E o que são os fatores psicossociais?

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que já em 1986 definiu como “as interações entre o trabalho, seu meio ambiente, a satisfação no trabalho e as condições de organização, suas necessidades, sua cultura, sua situação pessoal fora do trabalho, por percepção e experiências que pode influir na saúde, rendimento e na sua satisfação no trabalho.”

A pesquisa apresentada pela FIOCRUZ demonstra o perfil do trabalhador sem apoio e sem reconhecimento de seus gestores e evidenciam a importância dos fatores psicossociais e sua influência no desencadeamento do estresse relacionado ao trabalho no local de trabalho.

Desde 1984, a OIT – Organização Internacional do Trabalho e a OMS – Organização Mundial de Saúde estudam os reflexos dos riscos psicossociais na saúde mental do trabalhador.

Em 2016, eu tive a oportunidade de estar na Suíça, na sede da OIT e nesse mesmo ano a Organização divulgou um informe intitulado “Estresse no Trabalho. Um Desafio Coletivo”, que sublinha as seguintes questões que permeiam as relações de trabalho:

. Altos níveis de competitividade mundial;

. Demissões em massa;

. Redução das oportunidades de emprego;

. Aumento do temor pela perda do emprego;

. Desenvolvimento permanente de novas competências;

. Elevadas expectativas de desempenho;

. Jornadas de trabalho ampliadas, alongadas;

. Aumento da pressão para satisfazer as exigências da vida laboral moderna;

. Ritmo de trabalho marcado por comunicação e tempo real, instantâneas;

. Aumento de precarização do trabalho;

. Reduzida estabilidade financeira ou permanente em risco;

. Maior dificuldade para separar a vida profissional da vida pessoal.

Todos esses aspectos influenciam para que o trabalhador fique cada vez mais desmotivado, estressado e exausto, sendo fato gerador de várias outras doenças inclusive, osteomuscoesqueléticas (LER e DORT). No dia 05.09.2020, escrevi aqui sobre o “ A relação entre LER e a DORT e o sofrimento psíquico do trabalhador”, caso tenha interesse em saber sobre o tema.

E, diante de todo esse contexto de trabalho, os riscos psicossociais podem causar danos psicológicos:

. Diminuição da motivação para o trabalho;

. Irritabilidade;

. Estresse;

.Burn-out;

Ademais, podem gerar consequências negativas nas organizações.

O estresse laboral e todas as doenças relacionadas ao trabalho podem causar a incapacidade para o exercício das atividades laborativas e podem gerar consequências também na esfera jurídica.

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